Por Raíssa Saraiva e Siula Valentim

Dora nasceu na Bahia. Morava em uma invasão e vendia laranja e pipoca para se sustentar na terra natal. Um dia, ela e a família foram retirados do local onde moravam e mandados para uma área muito distante da capital Salvador. Na nova vizinhança, ficou difícil ganhar a vida. A baiana decidiu então tentar viver na capital federal. Veio de carona, passou a morar numa cabana de plástico em Taguatinga Centro. Não sabia fazer nada, não teve como arrumar um emprego e, para sobreviver, teve que pedir. Com o passar do tempo, Dora se tornou pedinte no Setor Bancário. E um fato mudou totalmente seu futuro. “Uma vez que eu estava lá pedindo e encheu de gente na minha frente falando um monte de coisa. Nesse dia eu ergui a minha cabeça e pedi a Deus que me tirasse daquela situação, porque aquilo não era vida”, conta emocionada. Alguém ouviu a súplica da moça. Ela foi indicada para trabalhar num restaurante. O trabalho não era fichado, Dora pulou de emprego em emprego. Mas tinha um trabalho, uma vida um pouco melhor. Foi então que ela chegou ao terreno no Pistão Sul de Taguatinga, próximo ao metrô. Não havia ninguém, só a sua família. Dora e os parentes começaram a catar e vender latinhas. Depois passaram a recolher também papelão. “Comecei a trabalhar na carroça, e falei, sabe de uma coisa vou trabalhar na carroça porque dá futuro”, diz. Estava ali a pedra fundamental da futura Cooperativa Reciclo. Aos 54 anos, Dora atualmente é responsável pela cozinha comunitária da comunidade. Além deste, tem outro cargo muito importante: é mãe das atuais presidente e secretária da Cooperativa. Histórias de batalhas femininas como a de Dora são comuns na comunidade da Cooperativa Reciclo. Dos 65 moradores adultos da região, 40 são mulheres. A atual gestão da presidência da Reciclo é toda composta por elas. Mas isso está para mudar: no próximo grupo de coordenação, um homem será o responsável pela tesouraria da cooperativa.
Foto: Pamela Jardim
(Postado por Lídia Mara)